Radiohead

Setembro 7, 2008

“I want to be in a band when I get to heaven / anyone can play guitar and they won’t be a nothing any more”. Quando Thom Yorke escreveu estes versos em “Anyone Can Play Guitar”, de Pablo Honey, inaugurando a discografia dos Radiohead, não sabia que se tornaria líder de uma das mais celebradas, cultuadas e mal compreendidas bandas da “virada” do século. O menino franzino, que se juntou a quatro amigos – Ed O’Brien (guitarra), John Greenwood (guitarra e teclados), Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria) – na sua cidade natal, Oxford, para tocar rock no inicio da década de 90, tornou-se um dos melhores letristas de nosso tempo e os Radiohead um dos melhores grupos da actualidade.

Os seus versos falavam da sensação de “não-pertencimento”, de inadequação à realidade imposta. “Creep”, primeiro single, tornou-se uma espécie de hino “loser” ao estoirar nas rádios de todo o mundo e mostrou o caminho que a poética do grupo seguiria (“I’m a creep / I’m a weirdo / What the hell I’m doing here / I don’t belong here“). Entretanto, a sonoridade mudou muito deste a estreia da banda em 1993 até In Rainbows, sétimo álbum do Radiohead.

Pablo Honey foi uma boa estreia, mas é um disco apenas regular. Rock básico, próximo de referências do underground americano como Nirvana, R.E.M. e Pixies, sem muito rebuscamento, foi meio esquecido pela imprensa britânica que vivia em êxtase com o britpop. O sucesso de “Creep” levou alguns críticos a afirmarem que Radiohead seriam uma “one hit wonder” (banda de um hit só, numa tradução livre).

O desmentido veio com The Bends, em 1995. O segundo disco do quinteto de Oxford trazia melodias lindas, tristes e melancólicas, e mais bem elaboradas e sofisticadas do que as anteriores. Novamente a influência vem do novo continente, especialmente de Jeff Buckley, que tinha lançado o excelente Grace um ano antes. A voz de Thom Yorke começa a brincar com os agudos e agrada muito aos que dão atenção a este belíssimo registo sonoro, num ano em que os holofotes estiveram voltados para a disputa entre “What’s The Story (Morning Glory)”, dos Oasis, e “The Grate Escape”, dos Blur. Ainda assim, The Bends rendeu três singles bem sucedidos: “Fake Plastic Trees”, “High & Dry” e “Just”.

O introspectivo Thom, que já tinha dado boas provas de sua competência nas doze faixas de The Bends, entra definitivamente para o role de gênios da música pop com Ok Computer, álbum em que os Radiohead “desconstróiem” a fórmula tradicional da canção pop (estrofe/refrão/estrofe 2/ponte/refrão e as suas poucas variações), choca o público com a ruptura do seu estilo (menos guitarras, mais teclados e sintetizadores) e deslumbra a crítica, que elege o disco como o melhor do ano. A tristeza permanece lá. Thom continua a sentir-se um outsider, como nos versos de “Let Down” (“and one day, I’m gonna grow wings / a chemical reaction / hysterical and useless / hysterical and… / let down and hanging around / crushed like a bug in the ground“). Mas a timidez e o conformismo cedem espaço a um discurso mais duro contra a tal realidade imposta em “Fitter Happier”, que mais parece uma súplica contra o sistema de valores da sociedade burguesa.

Dois anos mais tarde, depois de terem sido comparados a Pink Floyd, pela inovação que traziam à música e também por alguns conceitos e estruturas usados pela banda, os Radiohead saciram a sede dos seus fãs e da imprensa, todos ansiosos para saber o que viria depois da obra-prima Ok Computer. Veio Kid A, e com ele uma certa decepcção de uma parcela dos admiradores da banda. Os meninos magricelos de Oxford queriam realmente experimentar coisas novas e praticamente aposentaram as guitarras neste quarto álbum. Choveram críticas ferozes contra o disco. Pessoas a falar que Kid A era um “peso morto em cima do rock”, que já vinha sendo dado como morto por sectores mais reacionários da imprensa há já algum tempo. As comparações com o grupo de Sid Barrett continuavam, com o termo “neo-progressivo” usado de maneira um tanto duvidoso, podendo ser entendido como experimental e/ou chato.

Mas eles não se importaram com isso. Aquele mundo a quem eram tão estranhos queria que eles se adequassem aos seus “modus operandi”? Sem entrevistas, sem videos na MTV. Sem singles e sem concertos. Apenas aquele álbum “cabeçudo”, que serviu como uma maneira de saber quem de facto estava preparado para a(s) proposta(s) da banda. A Kid A seguiu-se, alguns meses depois, Amnesiac, com músicas gravadas nas mesmas sessões de estúdio. “Sobras”, “um Kid B” alarmavam os semanários ingleses, receosos do que viria pela frente. Mas Amnesiac, para além daquele monstrinho simpático na capa, trazia de volta as guitarras. Uma espécie de “involução” do que acontecera de Ok Computer para Kid A e indícios de que ainda havia espaço para o rock na música de vanguarda dos meninos de Oxford.

De 2001, quando Amnesiac veio a público, ficamos sempre todos à espera dos próximos Radiohead, sempre diferentes. A banda editou, no início de 2002, o ao vivo I Might Be Wrong (óptimo consolo para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de assistir a um concerto da banda) – com canções de Kid A e Amnesiac e uma inédita: a balada “True Love Waits”. E deram mais uma prova de que as experimentações e os bits electrônicos produzidos em estúdio e levados a palco, traduziam-se num bom rock, não convencional, é verdade, mas cheio de riffs e reverberações e linhas de baixo e percussão muito bem marcados, substituindo com maestria os sintetizadores e outros aparatos tecnológicos.

Mantiveram-se afastados dos olhos e ouvidos curiosos, trabalhando nas canções que entrariam no seu sexto álbum de originais. Em Julho de 2002 testaram o material numa dúzia de concertos em Portugal e Espanha (dos quais me custa recordar, já que não fui a nenhum). Olhar para Thom Yorke em cima do palco é ter a certeza de que o menino franzino que sonhava estar numa banda para deixar de ser um “nada”, conseguiu o que queria. Mesmo sem conhecer 50% das músicas apresentadas durante o concerto (metade do repertório eram as tais músicas inéditas, que estavam a ser “testadas”), o público entregou-se totalmente ao artista, como se estivesse diante de um Deus, que com a sua voz, as suas palavras e, sobretudo, com belíssimas músicas, dava aos presentes por instantes a tal sensação de “pertencimento” que não encontram na realidade.

Quase todas a músicas que compõe Hail To The Thief vieram a público na tournée ibérica dos Radiohead. Ao vivo, já se notava que o caminho escolhido pelos rapazes diferia das linhas traçadas nos dois últimos álbuns. Uma atmosfera um tanto jazz pairava no ar (uma linha contínua a partir de “Life In A Glass House”, última faixa de Amnesiac?). Entretanto, depois de levadas para estúdio, com a mão do produtor Nigel Godrich, o mínimo que se pode dizer sobre Hail To The Thief é que ele representa uma síntese de tudo o que a banda vem construindo há mais de dez anos.

Como dois e dois são…cinco, o rock, a electrônica, o jazz e outros estilos, convivem harmoniosamente neste disco, sem, necessariamente, se fundirem ou se sobreporem na mesma canção. Thom Yorke compôs melodias tão boas quanto as de The Bends que ora são acompanhadas apenas por guitarras, baixo e bateria, com arranjos de rock – como já não se fazia desde Ok Computer – , ora por batidas electrônicas quase dançantes – como as de Kid A - ou pianos, capazes tanto de suavizar como de criar uma atmosfera densa e sombria – tal como em Amnesiac. É como se estivéssemos diante de uma retrospectiva, só que com factos novos.

“2 + 2 = 5″, que abre o disco, é tão rock e com tanto potencial pop quanto as canções de Pablo Honey. “There There”, tem uma musicalidade deliciosa, embalada por uma percussão bem marcada e uma linha melódica bem “guitar”. E a voz de Thom, sempre deslumbrante, entoa num “quase refrão” estilo cancioneiro pop: “just ’cause you fell it, doesn’t mean it’s there“. “There There” poderia estar em The Bends – os riffs lembram muito a faixa que dá nome ao segundo disco da banda. O mesmo se pode dizer da balada “Go To Sleep” (similar à “My Iron Lung”).

No meio do caminho entre as origens e o passado recente – talvez como uma “Let Down”, do Ok Computer – figura “Where I End And You Begin”, canção sobre um desencontro, envolta numa atmosfera celeste. Segue-se o clima denso com o piano acompanhado de palmas (sim, palmas) de “We Suck Young Blood” – uma nova “Pyramid Song”. Já “I Will” é triste, mas linda e doce, como “True Love Waits”. E “Myxomatosis” vem fazer jus ao rótulo de “novos Pink Floyd”, colocado pela imprensa há alguns anos.

A electrônica, que permeia com pequenos toques aqui e ali em quase todas as faixas do álbum, dá as cartas na dançante “The Gloaming” (poderia ser mixada pelos Chemical Brothers e fazer par com “The Test” nas pistas de dança). Em “Backdrifts”, mergulhamos num território ainda não pisado pelo Radiohead: o trip hop (impossível não lembrar Massive Attack). E ao que parece os rapazes gostaram das batidas downtempo. Lá estão elas novamente, com um quê de jazz e soul, em “Punch Up At A Weeding” – qualquer coisa muito próxima de um Groove Armada em rotação reduzida e com vocais um tanto sinistros.

Dessa viagem ao passado resultou Hail To The Thief, um disco que pode trazer de volta algumas ovelhas desgarradas que se perderam com Kid A, com riffs cativantes de guitarras. Um disco que entusiasma fãs fiéis por verem a banda repensar a sua sonoridade mais uma vez, indo buscar, desta vez, nos seus próprios discos matéria-prima para experimentações. Um disco que mostra que o menino franzino e inadequado aos padrões, o freak da turma, não é mais um “Zé Ninguém”.

Passaram alguns anos desde Hail To The Thief e o sétimo álbum de originais de Radiohead. As saudades iam aumentando, até que chega In Rainbows que é o resultado de uma “linha editorial” que o Radiohead vinham seguindo desde o Hail To The Thief: doseando sempre muito bem os toques electronicos usados com as melodias orgânicas.

In Rainbows é composto por momentos mais cadenciados e minimalistas dos Radiohead para resultar no mais conciso disco da banda. Talvez este seja o único disco dos Radiohead que consiga ter tanta atenção como o clássico lançado por eles há pouco mais de 10 anos (Ok Computer), mas nem tanto pela possível inovação estética que isso possa trazer para o mundo da música. É sim uma obra singular, mas por ser de uma simplicidade nunca ouvida anteriormente nos discos do Radiohead.

As músicas mais movimentadas, com guitarras em evidência, não possuem a força de uma “2+2=5” ou “Electioneering”, mas são tão eficientes como esses dois registos. “Jigsaw Falling Into Places”, “Bodysnatchers” e “15 Steps” são as três mais notáveis nesse campo. A primeira começa com um som de guitarra acústica e uma bateria discreta que servem de abertura a um gemido que irá ecoar insistentemente, enquanto novos elementos vão sendo acrescentados (guitarra em crescente volume, os up and downs da voz de Thom York), fazendo dessa a melhor canção do disco. A segunda mostra como a banda ainda sabe fazer algum “estrago” (no lado positivo da questão) usando um baixo distorcido e gritos desesperados, agradando instantaneamente aos ouvintes mais impacientes. “15 Steps” é a faixa que abre o disco e já começa como mais uma daquelas coisas, sem nome e por vezes irritante de se ouvir, mas que só Thom York criou (principalmente no seu trabalho a solo) e faz. Mas, no meio desse vazio, surge uma melodia tão fácil e prazerosa de se ouvir, que dá até pra desejar um “The Eraser 2″ sem medo de ser feliz.

Os momentos sombrios e desesperados sempre presentes nos discos do Radiohead também ficaram menos apocalípticos, já que Thom York não os usa para repreender políticos megalômanos ou falar da mecanização-do-homem-no-mundo-moderno. Desta vez, só falam dele e de outra pessoa, sendo esta, geralmente, a causa de tanto lamento. “Faust Arp” lembra uma “True Love Waits” bem melhorada, só voz, guitarra acústica e violino compondo a música mais vendível do disco.

Mas as melhores canções para trazer à tona aquele Paranoid Android feeling (o personagem, não a música) são “Weird Fishes/Arpeggi” e “Videotape”, principalmente esta última, que encerra o disco e deixa o seu piano e as suas batidas secas a ecor por um bom tempo até que o ouvinte se sinta obrigado a reiniciá-la.

Se a qualidade deste disco for questionada em longo prazo, a maneira como foi vendido já o torna um marco da indústria musical: o cliente encomendou o download de In Rainbows e pagou o quanto quis, inclusive nada (1). Muitos se adiantaram até à própria banda decretando que, com esta maneira de distribuição, o disco “já era”, esquecendo-se de que a própria banda também disponibilizou para encomenda não só o cd físico, mas também a obra em vinil, e mais oito novas músicas que virão num segundo disco e num segundo vinil. Isso não é, nem de longe, uma tentativa de acabar com a obra física, mas sim de provar que há espaço no mercado e público consumidor para todos os suportes de música.

Não vejo a indústria musical, que ainda consegue vender mais de 400.000 cópias em uma semana de um disco de banda, seja uma industria que esteja mal de vendas. Está mal é de cabeça, por não saber como administrar e transformar as novas tecnologias em ganhos extras, sem ter que acabar com os velhos formatos ainda lucrativos. Estima-se que, só de downloads pagos pelo In Rainbows, os Radiohead tenham embolsado 4,8 milhões de libras (aproximadamente 507 milhões de euros), com um custo quase nulo de divulgação e de manutenção e criação da página www.inrainbows.com. Quando o número de encomendas da caixa especial de In Rainbows for divulgado (e sem dúvida nenhuma de que será bem expressivo), essa maneira de comercializar música será copiada exaustivamente por bandas que acham, como os Radiohead, que o seu público faz questão de possuir um álbum transportando as suas músicas, com todas as informações de quem produziu, quem tocou o quê, quem mereceu um agradecimento, enfim, quem acha que a música que se ouve precisa de uma identidade e não se resume só na quantidade de espaço que ocupa num HD ou no tempo que é comentado pela NME.