Grey’s Anatomy e Private Practice
Janeiro 10, 2009
[Contêm spoilers]
“The game. They say a person either has what it takes to play or they don’t. My mother was one of the greats. Me on the other hand, I’m kinda screwed.”
Nome original: Grey’s Anatomy
Nome traduzido: Anatomia de Grey
Temporadas: 5 (em exibição)
Ano: 2005
Criador: Shonda Rhimes
E assim, com estas palavras de Meredith (Ellen Pompeo), começou o primeiro episódio daquela que se viria a tornar uma das séries mais vistas da actualidade (e a minha série preferida, actualmente): Grey’s Anatomy (ou Anatomia de Grey, como preferirem). Hoje, três anos e quatro temporadas depois, será que podemos olhar para trás e dizermos que a série conseguiu manter o seu grande nível de qualidade? Ou será que, como tantas outras, sucumbiu ao tempo?
Março de 2005 – estavam por esta altura os fãs de “Desperate Housewives”, “Lost” e “House” a deleitar-se com a primeira temporada de cada uma destas séries de sucesso quando, no dia 27, estreou Grey’s Anatomy, com o episódio “A Hard Day’s Night”, no qual conhecíamos as personagens principais de toda a trama: Meredith Grey, Cristina Yang (Sandra Oh), George O’Malley (T. R. Knight), Isobel “Izzie” Stevens (Katherine Heigl) e Alex Karev (Justin Chambers), cinco universitários acabados de se formarem. Esse episódio, bem como os restantes oito da primeira temporada, fizeram com que a série se tornasse um êxito instantâneo e uma segunda temporada fosse encomendada. E foi esta temporada que definiu também todos os ingredientes que os fãs apreciam nela: comédia, drama, romance, desenvolvimento de personagens e casos não só, em grande parte das vezes, insólitos mas também empolgantes. Apesar da escassez de episódios, a sua qualidade era inegável. As personagens bem escritas e carismáticas, os toques de comédia, os diálogos inteligentes e a abordagem mais descontraída da medicina criaram uma base de fãs composta por 18 milhões de pessoas (o que, comparando com, por exemplo, “House” e “Lost” é extremamente bom, visto que ambos tinham, na sua primeira temporada, cerca de 14 milhões).
A segunda temporada (composta por 27 episódios) é, penso que quase unanimemente, a melhor das quatro (completas). Depois da surpresa do episódio “Whos Zommin’ Who?” (o último da primeira temporada), as vidas dos cinco estagiários complicam-se ainda mais e novos acontecimentos marcam a vida de cada um deles. Dos muitos eventos, o romance entre Izzie e Denny Duquette (Jeffrey DeanMorgan), um doente a necessitar de um transplante de coração, terá sido aquele que mais marcou os espectadores, não só pela química entre os dois actores mas também pelo desenvolvimento ao longo de mais de uma dezena de episódios, que por várias vezes nos levou a torcer para que ele sobrevivesse às várias complicações e que eles conseguissem ficar juntos (o final do episódio “Deterioration of the Fight or Flight Response” – que raio de nome – é um desses exemplos). E essa era a principal característica que destacou este romance dos restantes que se vêem desenrolando ao longo da série – aqui, um dos membros estava constantemente na eminência da morte, ao passo que, nos outros, muito raramente – que me lembre – isso acontecia.
Quando a terceira temporada começou, a série tinha já consigo cerca de 19 milhões de fiéis seguidores e, ao contrário de “Desperate Housewives” ou “Lost”, conseguiu não só aumentar mas também manter os fãs que ganhara desde o primeiro episódio. Nesta temporada, a mais dramática das três, as vidas dos cinco continuavam a complicar-se à medida que novos problemas os continuavam a abalar. Na primeira parte desta temporada, o foco foi o segredo de Cristina e o seu par romântico, Preston Burke (Isaiah Washington), mas também muitas coisas aconteceram, como o acidente de barco, no qual uma personagem era posta em “corda-bamba”; a relação de Ava e Alex, que o mudou bastante (para melhor); a concorrência para Chefe de Cirurgia (que tem um final inesperado); o final da temporada, que realmente marca uma nova etapa para a série; a morte de várias personagens relacionadas com as principais. Esta temporada agradou-me bastante, apesar de ser considerada pelos fãs a mais fraca – apesar de discordar com eles, uma coisa é certa: várias personagens foram descartadas (ou mortas) desnecessariamente.
“This is HighSchool with scalpels” (“Isto é o Liceu com bisturis”), disse uma vez Callie (Sara Ramirez) e, realmente, é verdade. Apesar de ser uma série sobre medicina, Grey’s Anatomy dá também grande importância às suas personagens e todas se vão moldando consoante os eventos que vão surgindo. As mais carismáticas são provavelmente Bailey, Cristina e Addison (Kate Walsh). Se antes da terceira temporada tinha uma favorita – Meredith -, agora as coisas mudaram, devido ao desenvolvimento das restantes. Ao longo das três temporadas, assistimos a vários amores e desamores, sendo o principal o de Meredith e Derek Shepherd (Patrick Dempsey), que se conhecem no “Joe’s”, um bar muito frequentado pelas personagens, mas também os pares Callie/George, Cristina/Burke, Izzie/Denny, Izzie/Alex têm destaque.
A música desempenha também um papel importante na série: os títulos de cada episódio são títulos de músicas e, de forma geral, encaixam muito bem na narrativa, sendo uma das séries que vende mais as suas colectâneas/colecções. Há que reconhecer a excelente escolha das músicas, mesmo se, ao escutá-las de novo, não venha à memória o momento exacto em que estas tocam na série… É de realçar também que a série prima por vários motivos, embora garanta uma banda sonora que nunca é desadequada, em que a música consegue levar a melhor e fazer o espectador sentir exactamente o que se pretende. E não é fácil brincar com sentimentos.
Grey’s Anatomy é, juntamente com muitas mais séries, vitima dos rumores e “fofocas”, muitas delas girando à volta de Meredith Grey (Ellen Pompeo). Ellen Pompeo sem dúvida que causa uma certa divisão nos espectadores de Grey’s Anatomy: ou a amam, ou a odeiam (sim, um pouco como caracterizei Marissa Cooper). Eu particularmente adoro-a, por isso, reconheço que posso ser um pouco tendenciosa na sua análise. Mas temos que reconhecer: a sua personagem, Meredith Grey, até há algum tempo atrás não tinha grandes atractivos, principalmente porque a sua relação de gato e rato com Derek, acabou cansando e prejudicando o desenvolvimento dos dois personagens.
Na minha opinião, Meredith Grey começou a ganhar mais corpo na metade da segunda temporada, nos episódios da bomba “It’s the End of the World” (2×16) e “As We Know It” (2×17). Parece que esses dois episódios serviram definitivamente para dar um “up” na personagem, episódios estes que receberam críticas positivas e uma indicação ao Emmy de melhor roteiro. É ainda neste período que surge um triângulo amoroso com o personagem de Chris O’Donnell (Finn, o Veterinário), previsível, mas que melhorou o aproveitamento de Meredith na série.
Na terceira temporada tivemos grandes episódios em que a sua presença foi relevante, especialmente naqueles em que Meredith tem que lidar com problemas pessoais com os seus pais, destacando a relação conturbada com a sua mãe, Ellis Gray (Kate Burton). A sintonia entre as duas foi tão interessante que Kate Burton também obteve uma indicação ao Emmy como melhor actriz convidada em série drama. Tivemos outros bons momentos também na trilogia “Walk On Water”, “Drowning on Dry Land” e “Some Kind of Miracle” (3×15 a 3×17). Achei que a importância e o destaque em cima da sua personagem cresceram muito na série nestes momentos, acabando os mesmo por serem muito importantes para o desenvolvimento da série.
Na quarta temporada as coisas melhoram bastante para a personagem de Meredith Grey, tendo mais destaque e a intenção de se decidir essa parte do vai-e-vem com o Derek. Shonda Rhimes parece ter visto que uma história de encontros e desencontros não estava agradando nem a audiência e mesmo Ellen Pompeo e Patrick Dempsey manifestaram-se que a linha que seus personagens estavam a ter não era a ideal, porque essa parte da história estava a virar uma verdadeira novela mexicana – o que fez decair as audiências, nesta mesma temporada –. A presença da sua meia-irmã na série também agitou a situação, somando isso às inseguranças da já fragilizada Meredith e do regresso do seu pai trazendo ainda mais decepções à mesma.
A personagem aos poucos começa-se a afirmar como um dos grandes destaques da série em contrapartida as actuações mais irregulares de seus colegas nesta última temporada, o que na minha opinião, credenciavam sim Ellen Pompeo a uma indicação para o Emmy.
Nome original: Private Practice
Nome traduzido: Private Practice
Temporadas: 2 (em exibição)
Ano: 2007
Criador: Shonda Rhimes
Um bom trunfo da produção de Grey’s Anatomy foi a criação de Private Practice. Uma semana antes da estreia oficial no canal ABC, o primeiro episódio de Private Practice já estava na internet. A exibição do piloto em Maio num episódio da Quarta Temporada de Grey’s Anatomy visava uma renovação e ajudou a clarear as ideias da criadora Shonda Rhimes, permitindo que ela verificasse o que não deu certo e reentrar com uma outra essência. As críticas foram impiedosas, mas o público fez a sua parte e os episódios alcançaram 20 milhões de telespectadores cada, ganhando inicialmente 13 novos episódios. Passado todo o negativismo em torno da nova série, Shonda Rhimes teve que repensar os seus conceitos e decidir se queria fazer uma cópia adulta e apimentada da original ou uma versão mais leve, menos dramática e mais cómica.
O seu primeiro episódio é diferente, mas no bom sentido. Esqueçam o piloto exibido meses atrás e vamos nos concentrar apenas no que veio a seguir ao primeiro episódio. Shonda Rhimes é mestre em conciliar situações dramáticas com comédia e aqui funcionou excelentemente bem, beneficiada pela leveza do episódio.
Em entrevista ao EW, Rhimes quis deixar bem claro que Private Practice seria o oposto da original. Mas o oposto em que sentido? Eu explico. Mais leve, tranquila, sem aquela loucura que é em Grey’s, com milhões de coisas acontecendo no mesmo tempo, e nem é sua intenção transformar a clínica num bordel (ok, bordel foi forte, mas vocês perceberam). Algo que se veja e se perceba que não é uma Grey’s Anatomy 2.0 e sim algo completamente novo.
Baseando apenas no primeiro episódio, é possível afirmar que eles conseguiram. Aqueles diálogos constrangedores não existem mais. A Addison está mais solta e sem medos. Conversas com o elevador? Jamais. E a sede sexual dos personagem foi quase totalmente deixada de lado. Os quarenta e dois minutos do episódio passam num piscar de olhos.
Private Practice não é aquela maravilha, mas está no caminho certo. Enquanto Grey’s Anatomy começou com uma primeira temporada irregular (óptimo piloto, alguns episódios apenas ok, e um grande season finale), Private Practice vem até aqui fazendo uma temporada de estreia mais regular, sendo que a sua maior rival será ela mesma. Se os roteiros seguirem a linha dos episódios já estreados, em breve não será mais lembrada como o spin-off de Grey’s Anatomy.