Damien Rice
Setembro 7, 2008
Nove em cada dez pessoas que ouvem (e gostam) do irlandês Damien Rice conheceram-no através do filme Closer: Perto Demais, disse há uns tempos um artigo da revista Visão. Quando “The Blower’s Daughter” começa a ouvir-se, logo no início da trama, acompanhando os passos de Natalie Portman e Jude Law, a sensação transmitida pelo conjunto – música, clima, paisagem, personagens – pode ser resumida numa palavra: fabulosa!
A música inicial é realmente inesquecível – Natalie Portman caminha numa rua movimentada e fria (em todos os sentidos), enquanto Damien Rice, ao fundo, canta “The Blower’s Daughter”, dizendo ao público um melancólico “And so it is”, arrematando com um refrão em que muda de tom alucinadamente para “I can’t take my eyes off you”. Quando ouvi pela primeira vez a música eu lembrei-me de algo parecido na memória e até arrisquei: “É uma versão para aquela famosa “I can’t take my eyes for you”, original de Frankie Valli e adaptada a dezenas de outros nomes da música”.
Mas, “The Blower’s Daughter” é absolutamente irresistível. A sua frase “No love no glory/no hero in the sky” conduz-nos irremediavelmente a um mundo real, sem glória, de amor baseado em sexo (como no filme), de falta de esperança reflectida num céu sem heróis. A voz de Damien Rice soa inicialmente como um James Taylor com mais testosterona (seria mais fácil dizer um Neil Young?), e vai evoluindo, passa por Thom Yorke só para cumprimentar e desembarca em….Damien Rice. Nele próprio.
O arranjo de cordas, o clima primitivo básico no qual o cantor já não sente saudades de mais ninguém a não ser dele mesmo quando era feliz, enfim, tudo isso faz de “The Blower’s Daughter” uma canção perfeita, estupenda, talvez a melhor da década. Será ouvida e re-ouvida por anos a fio, assim como “Delicate”, “Cold Water” e “Amie” (maravilhosa), outras músicas do disco que ficarão nas nossas memórias, para sempre (pelo menos na minha ficarão).
Retomando o fio, quando cheguei a casa, logo depois de ter visto o filme, a minha primeira ideia foi adquirir a banda sonora do filme. Daí foi um passo para descobrir o intérprete da música-tema.
O álbum de estreia (0 (2002) de Damien Rice não podia ser melhor. Um fantástico exercício de melodia, arranjos e instrumentalidade. Demasiado simples por vezes, mas absorvente na globalidade. Parece que estamos numa sala sozinhos, com ele a tocar para nós. E deixamo-nos ir. As músicas são geralmente tocadas à viola com acompanhamento de violoncelo. Por vezes temos Lisa Hannigan no suporte de voz. Nada de grandes extravagâncias. Unplugged e acústico.
Sintetizando, O é um retrato a preto e branco da música na sua melhor forma, colorido por letras profundas, num contraste perfeito. Há muito tempo não ouvia algo tão relaxante e viciante (será que um dia ouvi algo assim?)!
O começa com “Delicate”, que faz jus ao nome, e é uma das faixas mais bonitas do álbum. “Volcano”, a segunda, é mais rítmica, mas nem por isso menos interessante. A terceira é “The Blower’s Daughter”, que dispensa comentários…”Cannonball” é outra calminha, muito boa. As demais seguem o estilo romântico e incrivelmente belo. Destaco ainda “Cold Water”, que tem a introdução mais bonita dentre todas as faixas.
A força de “The Blower’s Daughter.” elevou Damien Rice a uma categoria superior, provocando comparações com Elliott Smith, Jeff Buckley e Ryan Adams, para ficar em apenas três nomes. Bono (U2) chegou a compará-lo com Bob Dylan e Cat Stevens, dizendo que assistir a um dos seus concertos era como assistir a Dylan nos anos 60 ou Stevens nos 70. Muita responsabilidade para alguém que tinha acabado de chegar ao mundo da música de uma maneira descomprometida e assim pensava permanecer.
Abrindo um parêntese no texto, estou a chegar à conclusão de que sou uma péssima crítica musical e que aquele curso de dois anos me serviu de pouco. Basta ouvir um CD arrebatador como este, e teço uma crítica rasgando elogios, e o pior, sem nenhum reverso!
Mas continunando…
9 (2006) vem no seguimento da independência de Damien Rice com um toque muito “irish”. Nada deste album é semelhante ao que ouvimos nas rádios ou MTV’s (e ainda bem!). É um trabalho que já tem o seu primeiro single “9 Crimes”, que de resto me apanhou logo à primeira audição (quem gosta da banda sonora do filme “Magnólia” gosta disto de certeza).
Analisando o album em si. É um álbum corajoso porque repete algumas fórmulas do seu trabalho anterior, mas ao mesmo tempo arrisca em outras frentes. É um album lento, calmo (salvo pequenas quebras nesta corrente), com faixas apoiadas geralmente só por um instrumento. Temos pouca percussão, o acompanhamento das vozes (sempre presentes) é preferencialmente piano ou guitarra acústica.
Sendo assim, “Elephant” tem o mesmo clima de “The Blower’s Daughter”, mas o primeiro single do disco, “9 Crimes” começa com a sua parceira de todas as horas Lisa Hannigan a cantar, para depois a voz aveludada e privilegiada de Damien Rice nos brindar com uma performance arrebatadora envolvendo uma estranha letra, que envoca um tipo de violência gratuita a partir de algum sentimento do passado. “Accidental Babies” e “Animals Were Gone” têm o mesmo clima sombrio no início mas vão crescendo ao longo da música até desembarcarem em orquestrações e longas notas de piano. Mais uma vez, um ponto para Damien Rice, que a cada segundo do disco prova ter feito as opções corretas.
O disco ainda está no meio e já me convenci que 9 é um bom trabalho. Na deliciosa “Dogs”, Damien Rice arrisca um ritmo, porém não foi falhada a tentativa. Dá um pouco mais de vida à sua melodia para então presentear-nos com “Grey Room”, uma balada tradicional, com um clima mezzo country, que faz para merecer a comparação com Ryan Adams, feita anteriormente. Em “Rootless Tree” ele despeja a sua raiva em alguém que quer que se vá, sendo bem directo no refrão: “Fuck you, fuck you, fuck you / And all we’ve been through”.
9 encerra com a delicada “Sleep Don’t Weep” e a certeza de que Damien Rice pode tranquilamente ocupar a lacuna deixada pelos late greats Elliott Smith e Jeff Buckley, citados anteriormente. Para muitos 9 pode ser aborrecido, e sem dúvida que é necessária uma disposição própria para ser bem apreciado. Ainda assim é de louvar este “remar contra a maré” de Damien que tem ainda como temas a destacar “Rootless Tree”, “Dogs”, e “Coconut Skins” além do já mencionado single “9 Crimes”.
